E agora, Brasil?


Ricardo Stuckert
"Escrever e publicar um livro nos tempos atuais é correr o enorme risco de ser superado pelos acontecimentos. Mais fácil seria se ater a textos para a fluidez imediata da internet. São tempos turbulentos, em que se esgotam hegemonias vigentes ate' ha pouco tempo e novas hegemonias encontram dificuldades para se afirmar. Tempos de crise hegemônica e de enfrentamentos de projetos hegemônicos antagônicos."
"Mas o desafio vale a pena, porque se trata de decifrar, mais além do turbilhão imediato da voragem dos acontecimento, os elementos de perdurabilidade, as tendencias de fundo, os elementos estruturais do cenário histórico. Senão parece que tudo é volátil, que tudo muda ao sabor dos ventos, conforme se alteram os formatos das nuvens no céu. Porque ha sempre uma lógica por detrás das loucuras e dos turbilhões."
Assim eu comecei a introdução do meu livro "Lula e a esquerda do século XXI", publicado agora. Livro que toma a trajetória politica como Lula como roteiro para compreender a historia da esquerda contemporânea, na sua luta de resistência e de superação do neoliberalismo. O livro busca contribuir para abordar os dilemas contemporâneos do Brasil e da America Latina, tendo o Lula como referencia, porque foi quem melhor captou as condições da luta contemporânea, em particular a da luta pela superação do neoliberalismo.
Que encruzilhada vive o Brasil hoje? Que horizontes se apresentam para o pais? O que são arvores e o que é floresta no Brasil de hoje? Da' pra enxergar mais além do amanhã?
Sabemos que sempre ha horizontes de superação de cada situação. Quando veio o golpe de 1964, alguns começaram a ver em algumas diferenças no interior do novo regime, sintomas de que ele não duraria muito. Maria Conceição Tavares lançou mão da sua experiencia para advertir que ela tinha ouvido previsões precipitadas como aquelas quando o salazarismo se instalou em Portugal e sobreviveu por varias décadas. A ditadura, ao militarizar o Estado brasileiro, ao destruir todos os espaços democráticos existentes, vinha para ficar, pretendia dar volta numa pagina da historia, que nunca mais retornaria.
FHC pretendeu ter virado a pagina do getulismo no Brasil, ao promover o Estado mínimo e a centralidade do mercado, pretendendo ter reduzido para sempre as dimensões do Estado e da esfera publica. Quando ele promulgou o Plano Real, houve quem dissesse que o Plano nao duraria muito, que assim que os trabalhadores se dessem conta que seu salários também, junto com os preços, estavam congelados, o Plano se esgotaria.

Em um e em outro momento, os períodos de auge da direita no Brasil, parecia que nao havia mais horizontes para a esquerda. Foram momentos de derrotas muito duras para a esquerda, nao apenas para sua organizações, para seus lideres, mas para suas próprias ideias. A economia voltava a crescer na ditadura, a luta armada era derrotada, no Brasil e no continente. O modelo brasileiro ganhava adesões das classes dominantes de outros países, os regimes militares se expandiam e se instalava um circulo do terror no cone sul latino-americano.
A onda neoliberal foi devastadora também no Brasil. A falência do Estado decretada pelo novo modelo que assumia o capitalismo, parecia irreversível. E com ele, a força dos partidos, dos sindicatos, da própria politica, como havíamos conhecido até ali. Parecia que a maior novidade da esquerda brasileira, o PT, se esgotaria e seria superado pelos novos tempos, antes mesmo de ter oportunidade de governar o pais e colocar em pratica suas ideias, triunfando ou fracassando.
Mas a nova toupeira – imagem que eu resgatei no meu livro anterior – continuava a fazer seu trabalho, o de aprofundar as contradições, mesmo que de maneira subterrânea, até que elas reapareçam bruscamente à superfície, com todo seu vigor.
O período politico atual, tão ou ate' mais turbulento que os que o precederam, pode parecer como caracterizado por um sistema blindado, em que as elites dominantes tratam de bloquear os espaços possíveis de acumulação de forca por parte dos movimentos populares, para tratar de impedir que retornem como alternativa popular com capacidade hegemônica. Acreditam que, se não puderam congelar a história, se não puderam impor um pensamento único, poderiam agora se constituir como as únicas forcas com capacidade para dirigir o Estado brasileiro.
Contam com o grande empresariado, com o monopólio privado dos meios de comunicação, com grande parte do Judiciário, com forcas policiais e com um governo recém eleito, mesmo se de forma fraudulenta. Acreditam que com isso poderiam excluir o povo da historia, impedir que as lideranças populares mantenham o apoio da grande maioria da população, que são capazes de camuflar a realidade e impor pautas imaginarias na cabeça da grande massa da população. Acreditam que podem esconder que governam para os ricos, que condenaram o Lula sem provas, que são capazes de fazer com que a economia, dentro do marco do neoliberalismo, possa voltar a cresces.
Em suma, acreditam nas suas próprias mentiras, que muito rapidamente começam a ser desmascaradas. Diante dos impasses que mais cedo que tarde atam a esse governo e diante da situação difícil da esquerda, temos que Perguntar-nos: E agora, Brasil? Que futuro podemos construir? Por onde podemos voltar a avançar? Como resgatar a liberdade do Lula, para que possa voltar a conduzir, plenamente, as lutas do povo brasileiro? https://www.brasil247.com/pt/colunistas/emirsader/387118/E-agora-Brasil.htm