Trânsito no Brasil mata mais de 50 mil por ano…

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O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) criou um dispositivo legal que não existia, mas ainda é preciso um processo de conscientização e de mudança na sociedade para diminuir o número de mortes no trânsito. A avaliação é do consultor em engenharia de transportes e trânsito, Osias Baptista Neto. Em entrevista ao Dom Total, ele falou sobre os avanços e desafios do CTB, que completou 18 anos no último dia 22 de janeiro.

Um dado informado pelo especialista mostra a gravidade da situação: 55 mil pessoas morreram vítimas de acidentes no Brasil somente em 2015. Segundo Osias, o Brasil está entre os países com os piores índices de morte no trânsito para cada grupo de 100 mil habitantes. Em novembro de 2015 ele participou, em Brasília, da reunião de avaliação da década de ações para segurança do trânsito, realizada pelo ONU. Ao todo, representantes de 142 países estiveram no encontro e as estimativas foram apresentadas.

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“Em países mais desenvolvidos, como a Suécia, são duas mortes para cada 100 mil. Temos Espanha e Alemanha com pouco mais de três mortes, Inglaterra com quatro, Estados Unidos, que é um pouco pior, tem sete, Uruguai tem onze. O Brasil está com 23. É o mesmo nível de países da África ou como o Camboja. Só que precisamos avaliar a situação desses países. Os representantes do Camboja, por exemplo, estavam felizes por terem conseguido aprovar uma lei que obrigava o uso de placas em motocicletas. A dúvida deles era saber como obrigar os motociclistas a usar capacetes. Estamos em um nível de mortes no trânsito comparado com essas realidades”, destacou. 

Dados do Denatran mostram que, desde que o CTB entrou em vigor até o começo deste ano, a frota de automóveis em circulação cresceu 275%, enquanto as mortes decorrentes de acidentes de trânsito aumentaram 40%. Embora o número seja alarmante,  o governo federal entende que a tendência seria ter um total de vítimas ainda maior se não existisse o CTB. 

Para Osias, falta vontade política, investimentos, educação, mudança cultural e conscientização da população para mudar o cenário atual. “Só os órgãos de trânsito são insuficientes para resolver os problemas de segurança de trânsito no país. Além de insuficientes, eles ainda têm uma participação menor do que deveria ser”, disse. 

Campanhas
Mesmo sem os investimentos necessários, Osias acha que as campanhas de trânsito desenvolvidos no Brasil começam a surtir efeitos. “Os países que investiram em educação para o trânsito com campanhas fortes, que mostram para a população a realidade nua e crua do acidente e de como ceifar vidas é uma coisa triste, tiveram bons resultados. O Brasil agora está começando a fazer isso”, disse. 

Apesar do avanço, o especialista ressalta que ainda é preciso evoluir muito. Ele compara as campanhas do trânsito com outras desenvolvidas na área da saúde, para combater a dengue, zika, chikungunya e aids, doenças que, segundo ele, mata bem menos do que os acidentes.

“O pessoal morre de medo das doenças, mas não morre de medo do trânsito. E isso por um motivo muito simples: o responsável por essas doenças é o mosquito. Ele é o vilão. O responsável pela aids é o vírus. Agora quem é o vilão do trânsito? Somos nós. E é difícil mexer consigo mesmo”, disse.  “Se qualquer uma dessas doenças matasse 50 mil pessoas por ano o Brasil fecharia as portas. Mas como é o trânsito…. acho que as campanhas são muito modestas e sem força política”.

Fundo

Segundo Osias, muitos recursos que deveriam ser destinados às campanhas são usados para outros fins. Ele citou o exemplo do Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (FUNSET), que recebe 5% do valor arrecadado com multas no Brasil. “Esse fundo deveria ser obrigatoriamente gasto em campanhas de educação para o trânsito. Mas, na realidade, mais de 90% deste recurso está contingenciado para fazer Superávit primário”, disse.