A luta pela vida dos siameses

http://imgsapp.impresso.diariodepernambuco.com.br/app/da_impresso_130686904244/2011/12/22/3623/20111222003203967314a.jpgAo contrário do que foi divulgado pela imprensa nacional, não foi um bebê com duas cabeças que nasceu em Anajás, mas sim dois bebês colados em um mesmo corpo. “Um atraso na divisão do ovo que originaria dois gêmeos normais formou duas crianças coladas”, explica a ginecologista e obstetra Neila Dahas, diretora assistencial da Santa Casa. “Quero que a mãe dos bebês entenda que não tem um filho monstruoso, um filho com duas cabeças, e sim que ela tem dois filhos”. A mãe, Maria de Nazaré, decidiu chamá-los de Emanoel e Jesus. Segundo a médica, a possibilidade de separação de corpos “seria absolutamente impossível”. São duas cabeças, dois cérebros e duas colunas – o que indica que são dois bebês – mas eles dividem o mesmo fígado, coração, pulmões e a pelve.

Os médicos lutam para manter os bebês estáveis, mas a situação deles é delicada. Uma das crianças “já está bastante cianótica, o rosto todo azulado, e a outra continua rosadinha respirando bem”, informa Dahas. Eles estão na UTI neonatal com acompanhamento de pediatra, neonatologista, enfermeiro, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e toda a estrutura necessária para mantê-los vivos. No último caso semelhante a este registrado na Santa Casa, os bebês permaneceram no berçário por cerca de um mês e meio e morreram.

A mãe dos bebês fez o pré-natal em Anajás, mas não fez nenhuma ultrassonografia nem sabia que estava grávida de gêmeos. Só no hospital o médico percebeu as duas cabeças. Ele ainda achou que eram gêmeos separados e só no momento da cirurgia percebeu que eles dividiam o mesmo corpo. A mãe conta que os dois mamaram, mas os médicos ainda não descobriram se eles têm dois ou um só estômago. “O corpo parece de uma criança normal”, diz Dahas.

A retirada de uma das cabeças, a única coisa que poderia ser feita, segundo a médica, esbarra na questão legal e ética. “Se estiverem com os dois cérebros funcionando, como vamos escolher qual a cabeça que vai ser retirada?”, questiona Dahas, em entrevista ao Diário do Pará.

Mesmo quando o acolamento se dá só no tronco ou na pelve, a cirurgia de separação nunca é imediata porque as crianças precisam se desenvolver e se estabilizar, e quase sempre a cirurgia é feita depois do primeiro ano de vida. “Então, nós não temos pressa no sentido de pensarmos na possibilidade de cirurgia. O que temos que pensar neste momento é em manter as crianças em boas condições e ver que evolução elas terão”.
DP